Nessa cidade a hipocrisia é ferramenta de trabalho de tantos
perdidos que já se encontra banalizada. São todos tão aptos a condenar nos
outros seus próprios pecados que já não se pode classificá-los.
Seus próprios pecados, isso sim é um rótulo válido para o
feudo franco. Da torre de gelo ao cetro do sol, da coroa de flores a árvore de
três galhos; a todo lado há sempre um perdido pronto a ser muito mais
monstruoso por dentro do que é por fora. Atacam-se, se ofendem, menosprezam ou
banem uns aos outros em um escandaloso, ou raramente sutil, jogo de egos e
rancores. Nessa terra de leis parciais vive um povo perdido, não de direção,
mas de moral.
É bem fácil se embalar pela doce canção de guerra e velório
do lugar, aprender os passos desse baile inconscientemente, como uma criança
aprendendo a andar. Aqui, como toda boa rixa política, a história é manipulada.
O passado tem tantas versões que mais parece o futuro. Dos loucos ou
inconvenientes trancados nos porões do verão ouve-se muitas verdades, ou meras
fantasias. São como o teclar do piano, firmes e convincentes, mas muito
difíceis de decifrar e descrever.














