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terça-feira, 24 de abril de 2012

A dança imprecisa


Nessa cidade a hipocrisia é ferramenta de trabalho de tantos perdidos que já se encontra banalizada. São todos tão aptos a condenar nos outros seus próprios pecados que já não se pode classificá-los.

Seus próprios pecados, isso sim é um rótulo válido para o feudo franco. Da torre de gelo ao cetro do sol, da coroa de flores a árvore de três galhos; a todo lado há sempre um perdido pronto a ser muito mais monstruoso por dentro do que é por fora. Atacam-se, se ofendem, menosprezam ou banem uns aos outros em um escandaloso, ou raramente sutil, jogo de egos e rancores. Nessa terra de leis parciais vive um povo perdido, não de direção, mas de moral.

É bem fácil se embalar pela doce canção de guerra e velório do lugar, aprender os passos desse baile inconscientemente, como uma criança aprendendo a andar. Aqui, como toda boa rixa política, a história é manipulada. O passado tem tantas versões que mais parece o futuro. Dos loucos ou inconvenientes trancados nos porões do verão ouve-se muitas verdades, ou meras fantasias. São como o teclar do piano, firmes e convincentes, mas muito difíceis de decifrar e descrever.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um bom ano – 4ª parte, o outono.


— Eu não entendo como você pode comer essas coisas. Você deveria ter uma boina vermelha logo de uma vez, já que é assim. — Disse a garotinha mal vestida com o rosto sujo. — Você deveria comer mais carne crua, verá como faz bem.

Debaixo daquela imensa ponte o tempo era quase irrelevante. Quem passava muito tempo ali só via o nascer e o por do sol como referências temporais, e há muitos perdidos que digam que é só isso mesmo que importa. O homem que escutava a garotinha se chamava Abraham; Abraham da Ponte, como era de se esperar. Ele passava muito tempo ali, e mesmo não gostando muito disso, recebia visitas com muita frequência. Aquela garotinha em particular era uma das poucas que não o desagradava por completo.

— Você é quem devia parar com isso, Leviatã. Isso te distancia da humanidade como nada mais poderia fazer. — Ele tirou uma bengala de madeira velha e carcomida de dentro de seu saco, apesar da degradação era possível perceber que aquela fora uma bengala e tanto um dia. Girou-a entre os grandes dedos e observou o acabamento do marfim de sua empunhadura. — Comer gente é errado.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Um bom ano – 3ª parte, o verão.


“Eles me prenderam aqui. Me amarraram como se eu fosse um animal. Fizeram comigo o pior que se pode fazer a um perdido... Me raptaram. Me tiraram de minha vida e me obrigaram a isso... uma sala acolchoada e isolada na sebe. Eles não tem noção de como isso me deixa puto!”.

Arthur, Coração de Leão, é um membro um tanto quanto antigo do feudo-franco de São Francisco. Por muito tempo foi o Xerife do fogo sob o comando de Tim, o Solar. Alguns até poderiam implicar com a coincidência dele ser trancafiado no sanatório meses depois de seu líder ser banido da cidade. Na época ele era o mais interessado em colocar o evento em pratos limpos... Mas não era possível negar que seus métodos eram um tanto quanto violentos demais.

“Violento demais... violento demais... Quem eles pensam que eu sou?! Violência é o que eu vou fazer quando sair daqui. Malditos miseráveis! Bando de ratos influenciáveis!”.

domingo, 25 de março de 2012

Um bom ano – 2ª parte, a primavera.

— Grod não é burro! — Ele disse para si mesmo diante do espelho, batendo na própria pestana. — Grod apanhou muito... Grod apanhava na cabeça... A fala de Grod quebrou.

E isso era bem verdade. Não que ele fosse algum tipo de gênio, longe disso. Só não era nem perto da burrice que aparentava, e isso não era um disfarce, suas funções de fala, de formação de discursos estava completamente comprometida. Muito além de uma sequela física, era algo mágico, enraizado no fado. Nunca mais seria capaz de dizer uma única frase que não o fizesse parecer um completo idiota.

Antes de partir, de ser arrastado pelos espinhos por um monstro devorador de pessoas, ele era um sujeito boa pinta, cheio de charme e conversa mole. Um arrebatador de corações das noites de São Francisco. Tinha um bom emprego, lidava com o público e era bom nisso, muitos amigos, pais e irmãos com quem mantinha um bom contato e namoradas aqui e ali. Sempre festeiro, aproveitando a vida, os bons drinks, a boa comida, o bom sexo. Mas lembrar disso não lhe fazia nenhum bem ultimamente. Ele não conseguia lembrar seu próprio nome, aquela pessoa que ele era não existia mais, nem no papel.

domingo, 18 de março de 2012

Um bom ano – 1ª parte, o inverno.

— Infortúnio... — É o que ele costuma dizer sozinho tarde da noite em seu minúsculo escritório na parte feia do centro da cidade. — Lá se vai mais um inverno.

Lewis, o empoeirado é provavelmente o membro menos notável da corte do Inverno. Não no sentido interessante de não ser notável, o que seria uma grande qualidade para preceitos comuns a corte, ele era esquecido simplesmente por ser incapaz de se destacar em quaisquer aspectos. O que para ele mesmo, já era ‘infortúnio’ suficiente.

Sua vida era plácida e sem muita emoção antes do rapto. O que não mudou de verdade do lado de lá da sebe. Aqui ele era um contador sem muitos clientes, só o suficiente para sustentar uma vida sem luxos, uma esposa desinteressante e dois filhos sem muito brilho. Lá ele não aprendeu nada de novo, e nem usava realmente o que sabia. Seu protetor era uma espécie curiosa de duende cuja aparência ele já não lembrava muito bem; o que os sonhos e pesadelos ao longo do tempo que se passara depois da fuga lhe lembravam com frequência apenas da monótona tarefa de revisar, contar e empilhar as muitas moedas de ouro que seu gentil acumulava em cavernas úmidas. Preenchendo uma papelada sem fim que só confirmava os mesmos valores, não havia muita entrada ou saída, só conferir, contar, conferir, contar...

quinta-feira, 1 de março de 2012

A menina e o circo – 3ª parte (Final)


Das coisas que ninguém sabe que Helena fez – 12 de Janeiro de 2012.

Helena pagou com um favor mediano, já realizado, o voto feito junto a Miss Veludo para encontrar a pessoa para quem Bernard levou uma mensagem.

Helena conjurou o Ifrit e descobriu o que o Trickster fez a dez anos atrás. Não se tratava de um contrato e nem de uma simples promessa.

Helena condenou um membro do Feudo a morte, alguns sabem disso, mas só ela sabe a verdade do porquê.

Helena sabe que o circo esta chegando. E só tem um palhaço preso em uma caixa de pandora que não resistirá por muito tempo. Ela tem fé que ao repetir os passos do Trickster isso se resolva.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A menina e o circo - 2ª parte.

Uma parábola que Branca de Neve leu no livro do Verão – dia 10 de Janeiro de 2012.

O caixeiro e o rato.

Era uma vez, num pequeno vilarejo a margem da estrada, vivia um rato cuja única motivação era conhecer a maior cidade da região. No começo do verão, um caixeiro viajante, que reabastecera seu estoque por ali, estava se preparando para levar tudo aquilo para a tal cidade onde venderia tudo e compraria coisas novas. Enquanto selava o cavalo ele viu o pequeno rato subindo sorrateiramente numa das bolsas de ferramentas no fundo de sua carroça.

— Ei, seu rato! O que pensa que está fazendo? — Gritou o caixeiro.

— Eu vou pegar carona com você para a cidade grande! Pois sei muito bem que vai pra lá! — Chiou o minúsculo, mas valente, rato.

— E o que espera encontrar lá, ratinho do campo? — Perguntou o intrigado comerciante.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A menina e o circo – 1ª parte.

Do diário de Kenzi – dia 09 de Janeiro de 2012

Diário,

Ainda não entendo o que aconteceu com meus pais. Nem o porquê deles ficarem tão diferentes, e nem porquê eles desapareceram. Aquela coisa que eles se tornaram, com todas as pedras e galhos me assustava, até a sensação de que eles iriam me comer... Credo! Não gosto nem de lembrar. Só espero que eles voltem logo, ao normal e para casa.

A vizinha ainda me deixa inquieta... Ela é azul. De um azul maravilhoso e tem um cheiro tão bom... Eu deveria ter medo dela, como tenho dos amigos dela, só que eu não consigo. O cheiro é realmente muito bom, e o azul tão... tão familiar.

Essa coisa toda de ser capaz de ver as coisas que os outros não veem tá me pirando. Mas quando eu consigo me acalmar até dá pra pensar que tem algo de muito irado nisso. Tem muita coisa triste e assustadora, mas é como ser personagem de um filme. Tipo, eu sou uma aberração para as aberrações.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Canção do Sol

— Você não tinha esse direito! Você não podia ter feito isso! — Gritava o Solar, o então líder do verão. — Eu vou te matar por isso!

Christopher sorriu, um tanto quanto sarcástico. Estava a metros de segurança das ameaças contidas pelos fortes braços de seus seguranças encantados. Esperava por alguma reação exagerada, é claro, mas não imaginou que seria tão imediata, intensa e divertida como estava sendo.

— Acho melhor você esperar sua estação chegar para isso, Timothy. Faltam apenas duas semanas, seja razoável. — Então abriu ainda mais o sorriso, para provocar seu ‘adversário’ ao limite. — Eu só dei a ele o que mais queria. Realizei o desejo, não me venha com seus rompantes infantis agora.

— Seu grande filho da puta! — Gritou ainda mais forte, e toda a ‘sala do trono’ esquentou e se iluminou com a luz do sol. — Ele é meu filho! Meu filho!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Coisas sobre as quais as aranhas conversam ao tricotar

— Shhhh. Shhhh. — Fez a aranha mais velha. — Prestem atenção no que eu vou falar agora!

Todas as aranhas mais jovens ficaram caladas e se acomodaram em um semicírculo para todas poderem olhar bem para a grande aranha já fraca pela idade. Colocaram suas trouxinhas de teias no chão e arrumaram seus múltiplos pares de óculos.

— Então, aranhinhas, o que sabemos até agora, vocês se perguntam? — E a regente fez uma pausa dramática. — Sabemos que a Primavera está nos distraindo de algo com seus jogos de quem mandará na próxima estação. Sabemos que quem mandará é o velho Demônio da Beleza, o chifrudo com olhos purpuras. Sabemos que o Verão está policiando clandestinamente a cidade, e que seu avermelhado líder anda de colundria com a rainha do inverno.

— Mas, minha sabia aranha, não deveria o verão ser mais militar que espião? Não seriam os invernais numerosos e capazes de vigiar tudo o que tem de ser vigiado? — Perguntou uma aranha novata e curiosa.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Antigo Rei Solar

— Então, Tic, chegaram dois perdidos durante o inverno. Já ponderou sobre o que isso significa? — Sentado no bar do Elísio, o Flautista questionava o dono do lugar.


— Humm. Não sei se sou quem deve preocupar-se com isso. — Disse o homenzinho enquanto enxugava canecas de cerveja mágica. — Acredito que existam outros reis e rainhas nesse lugar que sejam capazes de lidar com o que está por vir.

O Flautista deu um longo gole em sua taça de vinho azul. Bebida que só podia ser encontrada ali e que se acreditava ser feita de frutas da sebe. Frutas Goblin, como costumavam dizer, e ele pensava sobre o fato do pequenino nunca deixar o bar e assim como tais frutas chegavam as habilidosas mãos dele.

— Você nunca vai contar pra ninguém o que foi que você fez exatamente, não é? Nem pra rainha do inverno?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vermelho e Azul

— Então, o que achou dos recrutas? — Perguntou o líder da corte do verão.

— Hum... Adiantados eu diria. Mesmo de acordo com toda essa cena que Helena decidiu fazer, nós dois já sabemos que um é meu e outro seu. — Respondeu o líder da primavera. — Venha, vamos para a sala dos cavalheiros fumar um bom charuto e conspirar a favor do sol.

— Estranho ouvir isso de um antigo partidário insular. Christopher, você está armando algo grande debaixo desses seus cornos, não é? — Du seguiu o outro até a sala, mesmo não ficando realmente a vontade lá. — E eu não fumo, obrigado.

— Eu sempre estou ‘armando’ algo, Sangrento, sempre. E não se gabe de ser capaz de perceber isso, eu não me escondo. — Christopher sentou-se e escolheu um charuto da caixa ao lado da grande poltrona de coro. Sorriu com o canto da boca e deixou os vórtexis de seus globos oculares demonstrarem alguma simpatia. — Não me diga que você não está?